
...ou de como se fez com a ajuda dos meus Santos...
Os homens da meteorologia tinham previsto tempo enevoado, vento moderado com possibilidade de chuva e vagas de 3 a 4 metros para aquela noite...
Comecei a descida para a praia da Ursa com aquela previsão a remoer-me a cabeça. Recusava-me a aceitar que tinha marcado as férias de forma a coincidir com a lua cheia de Maio e que tinha feito mais de 300 Km para nada. O Zé*, meu amigo e companheiro desta e de outras aventuras fotográficas, caminhava ao meu lado, preocupado. Conseguia ler-se no entanto no seu semblante que - como eu - acalentava a secreta esperança que, no fim, tudo iria correr bem...
Chegados finalmente à praia, depois duma descida de respeito principalmente quando se carrega uns 30 ou 40 quilos de material e viveres, deparamos com um cenário e tempo magníficos que rapidamente nos fez esquecer as agoirentas previsões. Estávamos já no fim da tarde e não perdemos tempo, tendo de imediato começado a fotografar. Quando dei por ela tinha já gasto dois rolitos de 35mm e outros tantos de 120... O crepúsculo daquele dia tinha estado à minha feição e não o desperdicei...
Com o início da noite chegaram as nuvens, carregadas e feias. Com elas regressaram os meus receios... De facto, não se via a lua e o tão ambicionado luar era, naturalmente, quase inexistente. Para agravar as coisas a intensidade do vento aumentava de minuto a minuto e as vagas cresciam de forma exponencial.
Às duas da manhã, saturado da espera por uma lua que nunca mais descobria, montei o Manfrotto e coloquei-lhe em cima o único equipamento que ainda trabalhava com aquela humidade, a Pentax 6X7. Optei por uma objetiva Takumar de 75mm e pelo meu fiel Provia 100F. Como costumo fazer, abri o diafragma em f:8 e decidi-me, por palpite, por três tempos de exposição, 20, 40 e 60 minutos, longe dos habituais 5, 7 e 10 minutos em situação normal de céu limpo em noite de lua cheia.
Aquela praia, meu Deus, quase não existe na maré cheia... O mar partia a 10 metros e comecei a temer que chegasse ao sítio onde eu estava, apesar de estarmos o mais possível encostados à falésia. Temia por mim e pelo Zé, pelo equipamento e pelas fotos que, entretanto, se iam lentamente formando na película.
Dei por mim a pedir aos meus Santos que o mar não chegasse à falésia, que o tripé conseguisse resistir ao vento e que me dessem dois ou três minutos de verdadeiro luar para dar o necessário relevo à pedra da Ursa, sem o qual, toda a viagem e sacrifício poderiam ser quase em vão.
Eis senão quando, como por milagre, à 2ª fotografia, a tal dos 40 minutos, esta que agora vos mostro, o vento amainou um pouco, o mar acalmou e por breves momentos, durante uns dois minutos, um raio de luar incidiu sobre a Ursa, num momento de beleza divina e inesquecível e que dalguma forma se reproduz aqui.
E foi assim que, com a ajuda dos Santos, se fez...
Artigo publicado na revista "Super Foto Prática" de Dezembro de 2004.
*O Zé a que me refiro é o meu bom amigo e fotógrafo José Marafona.
Matosinhos, 2 de Agosto de 2008
Zacarias Pereira da Mata