domingo, 18 de novembro de 2018

Tormenta de Janeiro




Há mais de 10 anos que não postava nada, nem aqui nem em lado nenhum. Não sei muito bem como resolvi vir aqui hoje mas talvez tenha ver com a minha necessidade de escrever... Sim, porque esta necessidade existe, pelo menos para mim e, depois, com tanta privação de escrita, qualquer dia deixava de saber escrever (se é que alguma vez soube 😃).

Bem, arrisco-me, ao fim de tanto tempo de ausência, a ser como o Padre António Vieira que teve que pregar para os peixes por falta de melhor público mas, não faz mal, o que importa é sair da inércia e recomeçar. Atrever-me-ia a dizer: escrever é preciso!

Não sei se esta fotografia do farolim de Felgueiras é a minha melhor mas, seguramente, é das mais divulgadas, principalmente na Internet, naturalmente. Ao longo destes últimos anos, desde o temporal de 19 de Janeiro de 2013, data da foto, que tenho recebido e-mails, sobretudo de camones, com as mais díspares questões e até alguns disparates, prova provada que a foto despertou interesse o que me levou a crer que talvez fosse um bom assunto para uma primeira postagem desta nova "temporada". Aí vai a história da dita e alguns dados técnicos, principalmente para os meus amigos fotógrafos (não posso esquecer que este é um blog sobre fotografia):

Foi uma tempestade anunciada. O IPMA tinha divulgado com antecedência a possibilidade de vagas de 10 metros e rajadas de vento de 130 Km para o dia 13 de Janeiro de 2013, sábado. Na altura ainda trabalhava e o facto de ser a um sábado e estar disponível fez-me ficar em pulgas. Era quinta e já estava a preparar o saco: Corpos Canon 7D e 50D, lentes Canon 400 f/5,6 e 70-200 f/4 e todos os cartões e baterias que possuía na altura.

Levantei-me cedo até porque a maré cheia, quando normalmente as ondas atingem a sua altura máxima, era às 8H00 (se bem me lembro). O dia estava ainda a nascer e, conforme o previsto, o tempo estava do piorio. Da Praia da Memória, onde vivo, até à Foz do Douro ainda são uns quilometrozinhos e, confesso, face à escuridão, ao vento, à humidade salgada no ar e ao barulho assustador do mar, ponderei voltar à cama. Ainda bem que não fiz...

As ruas estavam desertas e aqui e ali via-se uma árvore ou um sinal de trânsito caídos. O mar estava como eu esperava, com ondas enormes, quase a cobrir o paredão norte do Porto de Leixões. No meio disto tudo, no entanto, e que entendi como bom prenúncio, chovia pouco.

A viagem não decorreu tranquilamente (não podia). A viatura tremia por todo o lado e não era possível conduzir com uma só mão, garanto-vos. Na rotunda da Anémona, ainda mais desabrigada que o resto do percurso, esvoaçavam folhas, plásticos e outro lixo. De repente - quase morri - senti uma forte pancada no carro acompanhada de estrondo. Era um garrafão de 5 litros de plástico a voar, literalmente, a 100 km/h. Quando pensei que já não podia apanhar susto maior, na rotunda seguinte, a do Castelo, já a entrar na Avenida Montevideu e Brasil, caiu-me um ramo de árvore no para-brisas, de dimensões razoáveis e que continuou a voar como se de uma folha de papel se tratasse. Felizmente, destes incidentes, por muita sorte minha, nenhum dano adveio para além dos quase enfartes 😃.

Atingido o ponto do não retorno lá segui devagarinho. Chegado, era preciso encontrar um bom lugar de estacionamento, razoavelmente afastado da hipótese de ser atingido por uma daquelas vagas chamadas "perdidas", que às vezes invadem a Foz, mas não muito longe do farolim. Vi um lugar ideal, ao lado de um SUV topo de gama, novinho em folha, com uma pessoa lá dentro a ver o espectáculo das ondas e estacionei. Entusiasmado, abri logo a porta do carro para sair tendo-me esquecido do vento (só mesmo eu), e, é claro - só podia - a porta empurrada por aquele vento tempestuoso foi bater violentamente contra o espelho retrovisor daquele belíssimo e brilhante SUV. Comecei logo a fazer contas mas por pouco tempo porque o dono do carro, um tipo grande em altura e largura, com cara de poucos amigos, interrompeu-me as contas e secamente convidou-me a ir ver a avaria. Bem, procuramos, procuramos e não havia avaria. Como isso foi possível não sei mas, naquele dia, por isto e pelo anteriormente contado, comecei a acreditar em milagres... 😃 ...

As fotos: Fiz umas boas mil fotos quer com a 7D e a 400, quer com a 50D e a 70-200, quase todas aproveitáveis. A luz não era famosa mas, para além de uns pampeiros, não chovia o que me permitiu ir fotografando. Consegui trabalhar com velocidades à volta do milésimo de segundo, aberturas por volta dos 5,6 e ISO nos 200. Quando estou a fotografar o mar, sobretudo temporais, não gosto de velocidades inferiores a 1/1000. Fotografar o mar é o 8 e o 80, isto é, ou com velocidades que congelem o movimento ou com longas exposições; o meio termo não funciona, ou quase nunca.

Em relação à fotografia que, ao fim e ao cabo, foi responsável por voltar a escrever, aqui ficam os necessários dados técnicos para os mais curiosos destas coisas da fotografia:
Canon EOS 50D
Canon EOS 70-200 f/4 
Abertura: f/5.6
velocidade: 1/1000 seg
ISO 200
Distância focal: 109 mm
Acerto de níveis, ligeiro escurecimento do céu e USM em Photoshop

Despeço-me com amizade e, não se esqueçam, tem tudo a ver com www.zacariasdamata.com.

Perafita, 18 de Novembro de 2018

Zacarias Pereira da Mata

1 comentário:

Correia dos Santos disse...

Esta foto é duma beleza estonteante e arrepia pensar que andamos por ali tantas vezes. Bom trabalho e proza magnífica.